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- Lau, quero falar com você.
- Mas tem que ser agora? Estou saindo para a aula de pintura...Ah, já ia me esquecendo, você sabe onde está aquele meu pincel importado? Aquele verde que a gente comprou juntas no Chile lembra?
- Só usei naquela vez, depois não vi mais, mas olha o que eu quero falar tem que ser agora.
- Então fala - Espera aí, essa blusa é minha. Estava procurando por ela em toda parte. Poxa vida, já te pedi pra me pe-dir as coisas.
- Sim, eu sei, eu sei, mas é justamente sobre isso que eu quero falar... Queria te pedir uma coisa e tem que ser agora porque quando você voltar já vai ter passado da hora...
- Fala logo então – Ô dona Zélia, chama o elevador pra mim por favor.
- Vamos sentar.
- Carô não dá, já não disse que estou saindo. Anda, fala.
- Tá bom. É que eu vi no seu armário que você comprou uma bota caramelo...calma, eu sei que ainda tá com a etiqueta e tal, mas é que...
- Ah Carô, eu já disse que não gosto de emprestar o que ainda não usei. Olha aí a história do pincel – Talvez eu nunca saiba como é pintar com pêlos de javali, só você.
- Eu sabia que você ia fazer um drama. Olha quer saber? Esquece! Eu não preciso dessa %@~!&# blá, blá, blá, blá &@#!blá!
- Tá bom, tá bom Carô, para com isso vai, pode usar a bota – Agora tchau, tchau dona Zélia.

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Laura sempre foi boa filha e é muito generosa. Do tipo boazinha, que não aprendeu a dizer não. Mas isso, na verdade, nunca a incomodou, ao contrário, sua conduta sempre foi exaltada e elogiada pelos pais e amigos. No fundo, Laura sabe que sua paciência e generosidade lhe rendem o seguro e confortável posto de ‘a mais gente boa’.
Já sua irmã caçula Carô, percebendo desde cedo que o lugar da boazinha da casa já estava ocupado, tratou de procurar o seu. E, sem se dar conta de que muita indulgência a induzia em um certo egoísmo, a menina foi ficando cada vez mais cheia de vontades, irresponsável e mandona.
Desde os tempos de colégio, Carô já dava sinais de que seria a filha de ‘personalidade forte’; brigava na escola e explodia a cada contrariedade sabendo que em instantes Lau chegaria com um punhado de panos quentes para abafar seu drama.
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E a história se repetia sempre.
Já na adolescência, na hora de sair para as festas, a menina dava o clássico 'piti não tenho roupa’ e corria para o armário da resignada Laura que lhe cedia o que quisesse - muitas vezes a própria roupa do corpo.
- Para de chorar Carô, tá tudo bem, você pode ir com este vestido olha eu já estou tirando.
Para Laura, há qualquer coisa no ato de satisfazer a irmã que a faz sentir-se segura como um guru e poderosa como um gênio da lâmpada.
E, para Carô, por outro lado, há qualquer coisa em sua atitude mimada que a faz sentir-se especial como uma princesinha e com a personalidade forte de uma artista.
* Note-se que este é, portanto, um ciclo mutuamente alimentado: A generosidade excessiva de uma incentiva o egoísmo latente da outra e vice-versa.
A mãe, dona Palmira, muito satisfeita, acha que Laura saiu à ela, e segue repetindo a constatação da semelhança, o que serve como combustível para acentuar ainda mais as diferenças entre elas.
- A Laura é como eu: somos parecidas em tudo, já Carô saiu ao pai...É dose essa menina...
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:: É ilusão alimentar o crocodilo esperando ser devorado por último::

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Hoje a menina mimada vai fazer o que queria e amanhã, quem sabe, testará mais uma vez a invejável generosidade de sua irmã.
Hoje a menina boazinha vai se orgulhar de sua nobreza e amanhã, quem sabe, irá mais uma vez ceder a invejável ousadia de sua irmã.
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Por sermos incompletos, sofremos a tendência de nos deixar moldar pelo outro, e cedemos aos seus limites muitas vezes por falta de conhecimento dos nossos próprios limites.
Enfim, apesar de o exemplo das roupas ser bastante alegórico e figurativo, acredito humildemente que esta simples percepção possa ser útil a muitas de nós, Laus, Carôs, amigas, irmãs, mães e filhas.
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mariaSanz.
criado por noprovador
15:27:04