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Jan Saudek
No pátio da escola, estava formada a roda de meninas em torno de Amália.
Com um cinto de couro dourado, que rodeava frouxo a blusa do uniforme, e um par de meias caramelo, que lhe subiam até os joelhos, a menina enfeitiçava as colegas contando mais uma de suas histórias.
Os pais de Amália há muito haviam se mudado para o Uruguai em busca de emprego, deixando a pequena no Brasil sob os cuidados de sua avó paterna, dona Yolanda – uma senhora corpulenta de cabelos loiros e lábios sempre rubros.
Vaidosa como poucas, a avó de Amália colecionava detalhes visuais das histórias de seu passado em Montevidéu, onde fora dançarina e cantora de um cabaré chamado Corazon de Fuego.
Vivendo com sua única neta Amália, todas as noites, arrumada e perfumada, dona Yolanda preparava sopa, punha a mesa, acendia velas, um cigarro e servia o vinho – que, mesmo sendo suco de uva doce para a neta, era servido em taça de cristal colorido – e então começava a contar histórias cheias de detalhes sobre vestidos bordados, sapatos exóticos e chapéus raros que se misturavam como uma orquestra para formar o visual de cada um de seus personagens.
Então, até a hora da novela, as duas viajavam na imaginação daquela senhora que, muitas vezes, repetia o mesmo conto do dia anterior. Mas Amália não se importava, conhecia o talento criativo de sua avó e gostava ainda mais quando ela inventava um novo final para uma velha história.
O armário de dona Yolanda era um acervo que compunha o patrimônio histórico de sua vida. Para cada peça havia uma canção, a história de um beijo ou uma cena mirabolante de ciúmes... E o melhor: Amália conhecia tão bem cada uma delas que, aos 11 anos já era capaz de reinventa-las para suas colegas.
Um dia apareceu na escola usando chapéu e segurando um cigarro apagado, que levava eventualmente aos lábios apertando os olhos como se fumasse e depois soprava vento no ar.
Quando passou pela sala da diretora disparou:
- Buenos dias donã Palmira – tocou com o indicador o cigarro, fingindo bater a cinza, e soprou mais uma vez o ar.
Pronto - Achando que aquilo já era demais, dona Palmira apanhou a menina pelo braço arrancando-lhe o cigarro apagado dos lábios e dizendo:
- Que absurdo é esse Amália! Tire já este chapéu ridículo, está parecendo uma rameira.
E a menina:
- É que hoje não sou Amália.
Meu nome é Beatriz. Não por opção, sou uma meretriz. Meu sonho é viver em Paris, onde certamente serei mais feliz trabalhando como atriz, casada com o homem que sempre quis.
Abriu a mochila, apanhou mais um cigarro, que fingiu acender com o polegar, soprou o ar dizendo:
- Me desculpe, preciso ir, hasta la vista.
Dona Palmira não sabia se aplaudia, chorava ou ria.
Preferiu a mudez de sua enorme sensatez.
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Foi Mario Vargas Llosa quem disse que a origem da disposição para inventar seres e histórias é a Rebeldia.
O ser criativo teima em criticar o mundo real fabricando, a partir da imaginação, realidades fictícias – que apesar de tão eficazes quanto um cigarro apagado, proporcionam um prazer viciante.
Rejeitar a realidade é pura rebeldia.
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Viva o rebelde que cria, escreve, interpreta, inventa, fantasia, colore, pinta, desenha, costura, faz a moda, o cinema e a música.
Viva a rebeldia feminina, que se pinta, se monta, se penteia, passa creme, perfume, batom, a mão nos cabelos e diz não à realidade cruel do espelho.
Viva a rebeldia da memória que guarda teimosa velhos casos de amor, beijos e brigas, viagens e glórias para serem reinventadas quando a realidade não convier.
Viva a rebeldia de Amália, que hoje é (segundo minha imaginação) uma grande cineasta!
mariaSanz.