no ProvadoR

Este blog foi criado para tirar dos cabides pensamentos que devem ser experimentados. Não tenha receio de entrar neste ProvadoR que se propõe a ser amplo e livre de preconceitos. Entre. Prove. E fique à vontade para Levar o que quiser.

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Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2006

28.10.06

. Femme Fatale .

categorias: happen

Nota de esclarecimento - A vilã desta história atende pelo nome de Expectativa.

Ela, que é a irmã extravagante da Esperança, faz planos ambiciosos e os materializa na mente – da gente.
 As irmãs.

Quando diante de uma situação em que o plano deu errado, e não há nada que se possa fazer a respeito, a Expectativa que vinha linda e loira (?) é empurrada do penhasco e cai gritando até atingir o chão de pedregulhos e morrer no ato.

.... Não seria ela a vítima?
Seria...Se não tivesse sido ela própria a causa de sua dramática morte. Ora, foi ela quem passou a irmã pra trás e se vendeu maior do que era de fato. 

A Esperança coitada, não é boa marketeira, não sabe se vender, é uma morena discreta que fala manso e não dá garantias, já sua irmã, ah...Ela sabe passar a lábia, tem gogó, como se diz, bola a história perfeita e a recheia de detalhes fantásticos...É sempre muito difícil não se deixar seduzir por ela.

Dentro da mente a cena se monta - é possível até sentir a emoção de tanto experimentar virtualmente a “situação de desejo”:

- Ele vai ligar, aí eu vou falar que não sei...Mas ele vai insistir, então eu faço charme e digo talvez....depois digo que sim. Sugiro um restaurante japonês...Acho que vou usar meu vestido vermelho, com o brinco de sempre, e com que sapato? Ai....que sapato? Com a sandália dourada. Vou usar minha carteira de cobra e fazer um rabo-de-cavalo alto. Aposto que quando ele vier me buscar vai colocar o cd que falei da última vez...isso é a cara dele...A noite vai ser per-fei-ta.

E assim a Expectativa desfila pra lá e pra cá sugerindo, falando, dando idéias, sem sossegar um minuto dentro da cabeça da menina.
Quando já se fazia tarde da noite, a Expectativa estava sentada num canto roendo as unhas quando sua tia-avó, a Realidade, avisou:

- Ele simplesmente não ligou.

Mais que rapidamente a Expectativa se levanta e corre tentando se esconder atrás de uma desculpa qualquer...tarde demais... A Realidade que é imperiosa e mãe dos fatos empurra sua sobrinha metida penhasco abaixo.
E mais uma vez a moça se lamenta por ter deixado a víbora fabulosa fazer ninho em seus pensamentos.

Algumas vezes ficamos nas mãos da Realidade que não deixa alternativas senão compreendê-la e aceitá-la. Mas quando sob o feitiço da Expectativa a Realidade é puro veneno...
É amarga a sensação ao saber que o jeans preferido está molhado pingando no varal; Que a tinta que o cabeleireiro usou ficou abóbora; Que ele não ligou; Que o transito não vai melhorar; Que o vôo está atrasado; Que não vai ter praia hoje; Que o presidente que você odeia vai ser reeleito. (...) 

 Castelos de açucar. (Instalação na Bienal - SP) - Pode ser que chova.
Sempre que a onipotente Realidade aparece de mau humor e me enfia seus filhotes, os fatos, goela abaixo sinto gosto de remédio...

- Colecionadora de fantasias e amante secreta da Expectativa - Construo castelos feéricos com pontes elevadiças, faço bailes de gala em cores lisérgicas e sonhos fantásticos onde uso chapéu.

O Tempo Rei é Professor, Ele já disse muitas vezes pra ter cuidado com os golpes da Expectativa, e que é melhor seguir sua irmã Esperança. – Mas de todos os seus ensinamentos, o que o Tempo mais repete é a importância de confiar na mãe Perseverança, que não se oferece por aí, se conquista a duras penas. 

...Quanto à Realidade....Vou engolindo seus remédios e fabricando elixires para salvar meus sonhos de seus venenos.

maria sanz.

  • criado por  noprovador criado por noprovador
  • Postado em 14:37:18

23.10.06

Idiossincrasias (?)

categorias: estilo

Idiossincrasia:   Característica comportamental peculiar a um grupo ou a  uma pessoa. Disposição do temperamento do indivíduo, que o faz reagir de maneira muito pessoal à ação dos agentes externos – Mania - Maneira de ver, sentir, reagir, própria de cada pessoa.


Seguindo uma sugestão vou tentar colocar as idiossincrasias à parte. 
  ....   Vejamos se isso é possível.

Para inicio de conversa quero logo separar a Comunicação da Criação.
A comunicação é um código que segue normas,  é repetição de fatos e dados. Enquanto isso que escrevo é criação, ou invenção, uma mistura única repleta de idiossincrasias.

Na ultima peça deste provador tentei por o foco sobre a receita da moda. E para criar minha visão sobre este assunto, lancei mão de minhas idiossincrasias, é claro, e metaforizei o processo de sedução empregado pela moda.

Se meu objetivo fosse comunicar o processo da moda não caberiam invenções a respeito daquele processo, mas apenas a repetição de dados e fatos.

Mas o que esse assunto tem a ver com o estilo?
- Tu-do.

Quem leu a última peça dever ter percebido minha intenção de dizer que a moda (e suas fugazes tendências) são criações propostas por pessoas criativas. (!) E que, sob meu ponto de vista, a nós, consumidores, caberá recriá-las, e não repeti-las.

Quando Clavin Klein disse que quem segue demais a moda está fora dela, ele quis dizer que quem “Comunica” que está na moda, está repetindo idéias.
E repetir idéias é por à parte as idiossincrasias. Ou seja, é simplesmente comunicar.

Cada um de nós é formado por três partes: a instintiva, a emocional e a inteligente. O somatório destas porções tem um resultado tão híbrido quanto único: Você, e Eu e a Rosangela. ...Ah, e logo a Rosangela que, como você e eu,  tem tantas histórias, emoções, jeitos, gostos e manias não pode querer apenas “comunicar” uma idéia que já existe.

*(Estar absolutamente na moda, ou seja, por dentro de todas as novidades, e comunicar isso a todos os interessados é função dos profissionais da comunicação em seus trabalhos nos jornais e revistas. Não de Rosangela...)

... Quando Rosangela foi à banca comprar a última Veja, lembrou que tinha uma festa no sábado e acabou comprando a última Estilo - o que ela queria eram sugestões de moda – mas acontece que, como na revista tudo fica bonito, lhe ocorreu que para não correr risco de "errar" o ideal era fazer igualzinho. 
- Rô queria estar na moda. Ligou para sua amiga Cristina e juntas sairam às compras. Compraram algumas roupas, 2 sapatos e uma bolsa igualzinha a da revista, que foi cara, mas para Rosangela significava a segurança na noite de sábado. No tal dia, já pronta, apesar de estar nova dos pés à cabeça, sentia-se estranha... Nunca gostou de bolsa grande, mas a revista havia insistido  que o tamanho era GG ...o sapato branco, que também era calouro em sua sapateira, parecia gritar....e o brinco de um lado só...ai ai ai.... colocava e tirava, mas por via das dúvidas já havia resolvido que levaria o outro par em sua enorme bolsa, bateu a porta do carro e suspirou procurando se encontrar no espelho do retrovisor... é ela não estava alí, chamou de novo o elevador e subiu para se encontrar.      


... Uma das minhas partes preferidas nas revistas é aquela que mostra o jeito de ser de uma pessoa a partir de seus objetos de moda. A-doro ler a historinha por trás de um colar, ou a explicação de uma mania escondida num sapato. Gosto de  ver as idiossincrasias das outras pessoas, e saber como isso se traduz para seu estilo.

A Elle fez uma edição especial de Minas e trouxe o estilo de Ivana Fraga. Sua linguagem cultua mais a independência do que a tendência. - achei o exemplo perfeito para ilustrar e fechar essa peça.

  Ivana Fraga é sócia, fã e esposa do estilista Ronaldo Fraga. Faz coleção de copos e ama vestidos "Desde pequena via minha mãe com vestidos longos e floridos. O estilo dela acabou me ensinando uma forma de vestir que é independente das tendências." Ela ouve musicas das décadas de 40 e 50 na vitrola e acredita que cabelo amarrado em coque com fita de veludo funciona sempre.


- Tendências à parte, nossas idiossincrasias são velhas conhecidas, e cada uma delas é um pedaço do nosso estilo.

mariasanz.. 

  • criado por  noprovador criado por noprovador
  • Postado em 08:26:42

19.10.06

{ Melado à Moda }

Tudo que é demais enjoa, já disse a sabedoria popular.
 Essa peça é melada, mas como não sou fã de doce, vou abrir com sal.

Quando me apaixono por uma música sinto vontade de “dar a sorte” de encontrá-la tocando no radio, e se isso acontece meu coração feliz aumenta o volume...mas, como tudo que é bom dura pouco, a musica acaba rápido... fica parecendo aquele punhado de pipoca que você implora ao pipoqueiro e ele dá... e já longe, comendo a última pipoca, você pensa: eu comeria um saco inteiro.
(- Da próxima vez eu compro um).
- Já quando, enfim, compro o CD (ou o saco grande) – para não mais precisar contar com o acaso (ou com boa vontade do moço) – ouço (e como) tanto, mas tanto que me enjoa.

A novidade tem cheiro exótico ela nos atrai e cobiça nosso desejo de meter a mão no pote e de se lambuzar...Até enjoar.


Esse cheiro extravagante é exatamente o segredo na receita do melado à moda.
A cada temporada a moda sai direto da fornalha formada pelas mentes criadoras para as passarelas e se exibe espalhando o aroma que aos poucos vai deixando a gente com água na boca e louco para por a mão na colher.
Seguindo seu rastro vamos até as bancas de revista para ver o produto mais de perto, aí pronto: a vontade de experimentar aquilo toma conta.
Enquanto alguns esperam a primeira oportunidade de meter a colher, outros, que já experimentaram, os artistas e formadores de opinião, se exibem e anunciam que é bom demais!
- Quando enfim as delicias já estão nas prateleiras (ou seriam cabides?), e podemos comer à vontade....aí que tá.....comemos de-mais.

Mas o problema não acaba aí...ora, não foi só você que comeu demais, mas todos e ao mesmo tempo, e aquele aroma que era bom já começa a impregnar os lugares, e vai ficando enjoado, enjoado, enjoado até o ponto de torcermos o nariz – eca (!).

Aí vem o outro segredo...O tempo traz a nova temporada com uma fornalha de delicias à moda fresquinhas! E lá vamos nós nos lambuzar mais uma vez. ...

Calvin Klein já deixou escapar que "Quem se mostra interessado demaais na moda do momento, não está em sintonia com os tempos".

Nossas avós cansaram de avisar que comer a panela de brigadeiro inteira dava dor de barriga, mas talvez não tenham explicado que isso se aplicava a todo o resto das coisas.

Por exemplo, sabemos que o estilo “náutico” (foi inclusive peça deste ProvadoR) é uma mega tendência de verão – Todo mundo experimentou e a tendência estava nas revistas, nas pessoas nas ruas, nos outdoors, nas vitrines, e em todo lugar se viam listras, nós, o dourado, vermelho, marinho, branco...mais listras, mais âncoras, mais listras, ai...tô ficando mareada....Enjoou!

- Pra mim, que prefiro um azedinho ao doce, melou demais.  

Existem outras deliciosas tendências da moda para este verão – (Ah, não deixe de conferir no sábado o Caderno Estilo! E no domingo, o Segundo Caderno do Jornal A Gazeta: cardápio de receitas quentes, com editoriais de moda e dicas para o próximo verão) – Mas é preciso perceber que a
moda não é uma imposição, ela não passa de uma série de propostas e receitas boladas, por pessoas antenadas e interessantes, para abrir nossos apetites e nos molhar a boca.

Portanto, como gourmet e gulosa, te digo: vá com calma, coma esse melado aos poucos, apure seu paladar e perceba o que te dá mais prazer. Depois, recrie as receitas, mude as proporções e meta o dedo nesse bolo - ele também é seu!

mariasanz.

  • criado por  noprovador criado por noprovador
  • Postado em 17:04:54

16.10.06

"*" Diamonds are Forever.

Entre no clima : http://www.youtube.com/watch?v=XSMsyKc5GI0

Brilhante é a fantasia.
Este mineral monométrico (carbono pu-ro), é a mais dura e brilhante das pedras preciosas. Companhia do tipo fiel, ele tem garantia infinita - quem nunca ouviu a frase, título do sétimo filme de James Bond (1971), “ Diamantes São Eternos” (?).
Só até aqui, enquanto faço qualquer introdução sobre esta pepita, já foram usadas as palavras: brilhante, preciosa, fiel, infinita, eterna...É ou não é coisa de conto de fadas?

Quando criança me perguntava porque aquilo era tão importante...Nunca fui muito de barbies, mas me lembro bem da boneca de uma vizinha que vinha com um anel de brilhantes! (strass...é claro), e por isso ela era especial...Todas as meninas queriam a barbie com o anel que brilhava de verdade. Minha curiosidade era entender por que aquele anel a tornava importante...Seria ela a mais "rica" entre as barbies (?) ou a mais “querida” (?) afinal, quem a teria dado aquele brilhante senão o Bob?!

Talvez seu nome fosse “barbie noiva”, não me lembro ao certo, mas sei que aquele brilho a fazia “diferente”.
E, assim como na minha imaginação, é provável que toda menina tenha se perguntado se algum dia ganharia um brilho “daqueles” de presente de algum Bob da vida real...É...por tabela, a imortal boneca ajudou a difundir a fantasia feminina de ter um anel de brilhante.

Símbolo de desejo, poder, sofisticação, admiração, distinção, entre outras coisas “preciosas”, o diamante foi mistificado com enorme contribuição de Hollywood, que desde os anos 30 encheu de glamour as telas de cinema com atrizes cobertas de jóias. As divas daquele período eram de uma elegância irretocável, seus figurinos e comportamento ditavam moda mexendo com a cabeça das mortais que sonhavam com todo glamour do cinema.
Um notável estilista e figurinista do cinema daquele período foi Travis Banton - da Paramount Estúdios - Em 1937 ele criou - para Marlene Dietrich estrelar o filme “O Anjo Azul” - um vestido todo bordado com brilhantes e outras pedras preciosas, além de fios de ouro...A exuberância de suas criações contribui com o fascínio e o desejo pelo luxo entre mulheres daquela época.


Dentre as divas do cinema e filmes produzidos que evocam o “valor” de um diamante, estão Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany’s) - 1961, baseado no romance de Truman Capote

E Marilyn Monroe em “Os homens preferem as loiras” - 1953, neste filme a sempre-diva faz uma de suas incríveis performances cantando “Diamonds are a girl’s best friend”:
Assista em (http://www.youtube.com/watch?v=p0FDGnAIWpk)

“The French were bred to die for love
they delight in fighting duels
but I prefer a man who lives
and gives expensive jewels.
(...)
Men grow cold as girls grow old
and we all lose our charms in the end.
But square-cut or pear-shaped
these rocks don't lose their shape
Diamonds are a girl's best friend (...)”.


Em ambos os filmes a mulher (quase “objeto”) deseja segurança financeira através do clássico golpe-do-"baú” .... Felizmente, os tempos são outros - acredito eu - É claro que toda mulher ficará imensamente lisonjeada ao ser presenteada com um diamante, mas a diferença é que hoje se realmente quiser para si um brilhante, ela vai e compra (!) - mesmo que seja dividido em 12 parcelas...

Uma amiga me disse que para ela o valor de um diamante é determinado por sua origem, não aquela geológica, mas pessoal... “Depende de quem me deu o brilhante... se foi com amor, ou não...ou se fui eu quem comprou, por que neste caso tem gosto de vitória...”
Dentre todas as coisas que o diamante representa, seus valores mais preciosos são Verdade e Eternidade, ou seja, ausência de impurezas, talvez por isso esteja atrelado ao conto de fadas, à fé no amor verdadeiro e no sentimento impregnado no presente, como lembrou minha amiga.

Amor, dignidade, respeito, lealdade...São preciosidades cujo valor principal independe de sua utilidade. Ora, não se pode ser digno por uma noite apenas, ou leal por uma semana, a não ser que seja um valor de bijuteria - um truque para impressionar o espectador. Valores verdadeiros são como diamantes puros que, mesmo dentro de uma caixa de veludo guardado na gaveta da cômoda, existirão por toda a vida.

Ser preciosa, portanto, depende muito mais dos valores guardados dentro das gavetas de nossas almas, que daqueles pendurados em nossos corpos....A não ser que a moça seja uma barbie que, sem alma, valerá o quanto mostrar.

Anyway...Diamond Rocks!

maria.
- Ah, só pra constar aqui: Meus avós comemoram Bodas de Diamantes em março próximo...60 anos juntos é coisa muito sólida e, (especialmente no caso deles), brilhante. (!).

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  • Postado em 10:54:04

09.10.06

. Marciana .

categorias: estilo


Puxando uma angústia” (para ter mais estilo).

Assistindo a palestra “A crise dos gêneros”, do psicólogo clínico Ivan Capelatto, fiquei passada, como se diz, com uma constatação tão atual quanto desanimadora:
Nossa sociedade desistiu de oferecer padrões de identidade psíquica para oferecer a identidade social, que tem como valores os símbolos, o símbolo da roupa, da marca, do corpo, do sexo...
A frase acima pode parecer fora de moda, ora, já não é novidade o fato de nos dispormos conforme os símbolos. Mas ainda assim, acredito no valor de “puxar uma angústia” de vez em quando.

Há 50 anos, Fernando Sabino criou Eduardo Marciano, para protagonizar as inquietações de um jovem, em seu romance “O encontro marcado” - (quem não leu para o vestibular ?). - Todo desassossego vivido por Marciano nesse romance se transpõe com muita propriedade para a atualidade que vivemos...Com a diferença (elementar) que hoje  para qualquer angústia existe Rivotril.

Fernando Sabino e Ivo Pitanguy foram amigos de longa data na Belo Horizonte do século passado -

  Os jovens amigos Ivo e Fernando em tempos de "angustia proveitosa".

- há quem diga que o romance guarda um nítido tom autobiográfico, e por esta razão é possível crer que os personagens criados por Sabino foram inspirados em seus amigos. Em recente entrevista ao Globo, quando perguntado sobre a marcante cena do livro em que os amigos estavam “puxando angústia” nos bancos de praça, Pitanguy respondeu:

“Isso fazia parte da nossa geração. Não tinha o que puxar, não tinha fumo, não tinha nada... A angústia era uma coisa que pertencia a todos nós (...) Sentávamos e discutíamos o mundo (...)”.

Os tempos são outros....Dia desses, durante uma lição de teoria da personalidade-I na Ufes,  o genial professor Victor Brecheret disse, entre outras coisas, que atualmente vivemos a era do prazer urgente, por felicidade ou por prozac.

Já na palestra de Capelatto ele, que  fala com bases científicas, comenta as conseqüências da falta de limites imposta pela busca deste prazer imediato: a falta de crítica impede a *sublimação,  elemento básico para a formação e o desenvolvimento da personalidade e da criação, e por sua vez,  do estilo.

* Como o próprio movimento da Dialética em sua capacidade de converter o negativo em ser, Freud o descreveu, adotando o termo Sublimação (mais nietzschiano) para descrever o processo de criação (estética, artística, intelectual...). 
 
Pais heróis, preocupados em evitar a todo custo o sofrimento de seus filhos, lhes poupam o direito à sublimar, ou seja, ao invés de permitir que através da angústia a criança crie e desenvolva a solução para o quebra-cabeça, estes pais cortam caminho e, inocentes às conseqüências, satisfazem o desejo infantil de ter tudo na mão.

Marciana - Particularmente, posso dizer que vivi os dois lados dessa história, meu pai, homem sábio e diplomático, à sua maneira, navega em mansas águas. Por outro lado, sendo minha mãe uma Esfinge, aprender a decifrá-la sempre foi meu desafio.  E para cada vez que fui devorada, criei uma nova possibilidade de sublimar.

* meus (maus) rabiscos, ou qualquer outra "invenção de moda", como este texto, ajudam a apaziguar meu quase imenso desassossego.     

Toda criação, enfim, como viveu e romanceou Sabino, advém do desassossego da busca, e das angústias pertinentes à descoberta do ser em si.

E só para fechar, trago um trecho do "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa:

 "Conquistei, palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu. Reclamei, espaço a pequeno espaço, o pântano em que me quedara nulo. Pari meu ser infinito, mas tirei-me a ferros de mim mesmo".

maria.

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  • Postado em 11:51:11